Texto reproduzido do site Revista Fórum
Dois importantes eventos marcaram no mês passado o mundo dos partidos social-democratas. Na Suécia, em 19 de setembro, o partido sofreu uma pesada derrota nas eleições. Desde 1932, governou o país 80% do tempo, e esta é a primeira vez desde essa data que um partido de centro-direita consegue a reeleição.
Por Immanuel Wallerstein[28 de outubro de 2010 - 12h28]
Dois importantes eventos marcaram no mês passado o mundo dos partidos social-democratas. Na Suécia, em 19 de setembro, o partido sofreu uma pesada derrota nas eleições. Obteve 30,9% dos votos, o seu pior resultado desde 1914. Desde 1932, governou o país 80% do tempo, e esta é a primeira vez desde essa data que um partido de centro-direita consegue a reeleição. E para agravar o mau desempenho, um partido de extrema-direita, anti-imigrante, entrou no parlamento sueco pela primeira vez.
Por que é isto tão dramático? Em 1936, o jornalista norte-americano Marquis Childs escreveu um livro famoso, intitulado Suécia: o Caminho do Meio. Childs apresentava o regime social-democrata da Suécia como uma virtuosa via intermediária entre dois extremos, representados pelos Estados Unidos e pela União Soviética. A Suécia era um país que efetivamente combinava a redistribuição igualitária com a política interna democrática. Pelo menos desde os anos 30, a Suécia foi o modelo mundial da social-democracia, a sua verdadeira história de sucesso. E assim parecia manter-se até há bem pouco tempo. Já não é o modelo mundial.
Entretanto, em 25 de setembro, na Grã-Bretanha, Ed Miliband veio muito de trás para ganhar a liderança do Partido Trabalhista. Com Tony Blair, o Partido Trabalhista envolvera-se na remodelação radical do partido sob o lema de "New Labour" [o novo Partido Trabalhista]. Blair argumentara que o partido também devia ser uma via intermediária – não entre o capitalismo e o comunismo, mas entre o que costumava ser o programa social-democrata de nacionalização dos setores-chave da economia e o domínio sem rédeas do mercado. Esta era uma via bastante diferente daquela da Suécia nos anos 30 e das décadas seguintes.
O fato de o Partido Trabalhista ter escolhido Ed Miliband, em vez do irmão mais velho David Miliband, um sócio-chave de Tony Blair, foi interpretado na Grã-Bretanha e noutros lados como um repúdio de Blair e o regresso a um Partido Trabalhista de certa forma mais “social-democrata” (mais sueco?). Não obstante, poucos dias mais tarde, no seu primeiro discurso na conferência trabalhista, Ed Miliband reafirmou uma posição “centrista”. E apesar de ter ornamentado as suas declarações com alusões à importância da “justiça” e da “solidariedade”, disse: “Devemos livrar-nos do velho pensamento e erguer-nos por quem acha que há vida para lá do lucro”.
O que nos dizem estas duas eleições sobre o futuro da social-democracia? Convencionalmente (e o mais provável é que corretamente) a social-democracia – como movimento e como ideologia – é vinculada ao “revisionismo” de Eduard Bernstein, na Alemanha de finais do século XIX. Bernstein argumentava em essência que, uma vez obtido o sufrágio universal (que para ele era o voto masculino), os “operários” podiam usar as eleições para ganhar cargos para o seu partido, o Social-democrata (SPD), até tomarem o governo. Uma vez que ganhasse poder parlamentar, o SPD poderia então “decretar” o socialismo. Por isso, concluía, falar de insurreição como via para o poder era desnecessário e de fato uma tolice.
O que Bernstein definia como socialismo era pouco claro em muitos aspectos, mas, ainda assim, parecia àquela altura incluir a nacionalização dos setores-chave da economia. Desde então, a história da social-democracia como movimento foi de um lento mas contínuo afastamento da política radical para uma orientação muito centrista.
Durante a Primeira Guerra Mundial, os partidos social-democratas repudiaram o seu internacionalismo teórico, ao apoiarem os seus próprios governos em 1914. Depois da Segunda Guerra Mundial, alinharam-se com os Estados Unidos na Guerra Fria contra a União Soviética. E em 1959, na sua conferência em Bad Godesburg, o SPD alemão rejeitou oficialmente o marxismo por completo. Declarou que “de um partido de classe operária, o Partido Social-Democrata transformou-se em um partido do povo”.
Na altura, o que o SPD alemão e outros partidos social-democratas defendiam era o compromisso conhecido como “Estado de bem-estar social”. No período da grande expansão da economia-mundo nos anos 50 e 60, a social-democracia teve bastante sucesso nesse objectivo. E, nesse tempo, manteve-se como um “movimento”, no sentido de que estes partidos impulsionavam o apoio activo e a adesão de um grande número de pessoas no seu país.
No entanto, quando a economia-mundo entrou na sua longa estagnação a partir dos anos 70, e o mundo entrou no período dominado pela “globalização” neoliberal, os partidos social-democratas começaram a ir mais longe. Puseram de lado a ênfase no Estado de bem-estar para se tornarem nos meros promotores de uma versão mais suave da primazia do mercado. Era este o significado do “New Labour” de Blair. O partido sueco resistiu a esta viragem mais tempo que os outros, mas também acabou por sucumbir.
A consequência disto, no entanto, foi que a social-democracia deixou de ser um “movimento” que conseguia congregar a lealdade e o apoio de grande número de pessoas. Tornou-se uma máquina eleitoral à qual faltava a paixão do passado.
Ainda que a social-democracia já não seja um movimento, continua a ser uma preferência cultural. Os eleitores ainda querem os desbotados benefícios do Estado de bem-estar social. Protestam regularmente quando perdem outro destes benefícios, o que agora ocorre com alguma periodicidade.
Finalmente, uma palavra sobre a entrada do partido anti-imigrantes, de extrema-direita, no Parlamento sueco. Os social-democratas nunca foram muito fortes no que se refere aos direitos das “minorias” étnicas ou outras – muito menos a respeito dos direitos dos imigrantes. Os partidos social-democratas tenderam a ser partidos da maioria étnica da cada país, defendendo o seu território contra outros trabalhadores que viam como responsáveis por provocar a redução de salários e do emprego. A solidariedade e o internacionalismo eram palavras-de-ordem úteis quando não havia concorrência à vista. A Suécia não teve de enfrentar este assunto seriamente até há pouco tempo. E quando o fez, um segmento dos eleitores social-democratas simplesmente correu para a extrema-direita.
Tem futuro a social-democracia? Como preferência cultural, sim; como movimento, não.
Tradução de Luis Leiria, revista pelo autor, para Esquerda.net.
Blog do Diretório Zonal da Freguesia do Ó e Brasilândia do Partido dos Trabalhadores na Cidade de São Paulo - SP
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
SÓ FATO DE GRANDE REPERCUSSÃO MUDA TENDÊNCIA PRÓ-DILMA
Jose Roberto de Toledo – O Estado SP
A ampliação da vantagem de Dilma Rousseff (PT) na reta final do segundo turno dificulta muito a tentativa de José Serra (PSDB) de virar a eleição na última hora. O tucano briga contra a inércia do eleitorado. A esta altura, só um fato novo de grande repercussão lhe daria chance de mudar a tendência do voto.
A petista se distancia do tucano em praticamente todos os segmentos importantes de renda, escolaridade e faixa etária. Nas maiores regiões, ela consolidou a proporção de 2 votos para 1 no Nordeste, e aumentou para dez pontos sua diferença no maior colégio eleitoral, o Sudeste.
O fator religioso, principal responsável por levar a eleição para o segundo turno, foi neutralizado. Dilma tirou a vantagem de Serra entre os evangélicos, ampliou sua diferença entre os católicos e recuperou parte dos eleitores agnósticos, ateus e de religiões não-cristãs.
A recomendação do papa aos bispos para que atuem politicamente no Brasil contra quem defenda o aborto poderia ser o fato novo esperado pelos partidários do tucano?
Para surtir efeito eleitoral, a manifestação de Bento 16 precisaria chegar rapidamente aos seguidores da Igreja e com força suficiente para reverter a preferência de 55% dos católicos pela petista. No primeiro turno, Dilma perdeu quatro pontos entre os católicos nos últimos dias de campanha.
Uma queda nessas proporções entre os católicos agora implicaria diminuir de 14 para 9 pontos a vantagem de Dilma no total. Sem contar o eventual efeito inverso que isso poderia resultar entre os evangélicos e eleitores anti-clericais.
Com a questão moral de lado, o bolso voltou a ser soberano na eleição. No começo do segundo turno, os programas sociais do governo federal brecaram a queda de Dilma e impediram que o tucano empatasse.
Mas foi no eleitorado não-bolsista que ela cresceu nas últimas duas semanas. Ele tem sido o responsável por aumentar sua diferença sobre Serra. Hoje, segundo o ibope, 2 em cada 3 eleitores da petista não participam de nenhum programa federal.
E por que esse eleitor declara voto nela? Muito provavelmente pelo bom momento da economia, que expande o emprego, a renda e, principalmente, o crédito para o consumo. Um indicador indireto disso é a avaliação do governo Lula.
Entre o terço de eleitores que dá nota 10 à atual gestão, Dilma tem 78% do total de votos. Entre os 15% que dão nota 9, ela tem 2 em cada 3 votos. O divisor de águas é a nota 8, que compreende 23% do eleitorado.
Nela, Serra chegou a empatar com Dilma no começo do segundo turno: 47% a 47%. Agora, a petista voltou a abrir uma pequena diferença, e lidera por 48% a 43%. De 7 para baixo, o tucano vence por larga margem, mas esses eleitores são apenas um quarto do eleitorado.
A ampliação da vantagem de Dilma Rousseff (PT) na reta final do segundo turno dificulta muito a tentativa de José Serra (PSDB) de virar a eleição na última hora. O tucano briga contra a inércia do eleitorado. A esta altura, só um fato novo de grande repercussão lhe daria chance de mudar a tendência do voto.
A petista se distancia do tucano em praticamente todos os segmentos importantes de renda, escolaridade e faixa etária. Nas maiores regiões, ela consolidou a proporção de 2 votos para 1 no Nordeste, e aumentou para dez pontos sua diferença no maior colégio eleitoral, o Sudeste.
O fator religioso, principal responsável por levar a eleição para o segundo turno, foi neutralizado. Dilma tirou a vantagem de Serra entre os evangélicos, ampliou sua diferença entre os católicos e recuperou parte dos eleitores agnósticos, ateus e de religiões não-cristãs.
A recomendação do papa aos bispos para que atuem politicamente no Brasil contra quem defenda o aborto poderia ser o fato novo esperado pelos partidários do tucano?
Para surtir efeito eleitoral, a manifestação de Bento 16 precisaria chegar rapidamente aos seguidores da Igreja e com força suficiente para reverter a preferência de 55% dos católicos pela petista. No primeiro turno, Dilma perdeu quatro pontos entre os católicos nos últimos dias de campanha.
Uma queda nessas proporções entre os católicos agora implicaria diminuir de 14 para 9 pontos a vantagem de Dilma no total. Sem contar o eventual efeito inverso que isso poderia resultar entre os evangélicos e eleitores anti-clericais.
Com a questão moral de lado, o bolso voltou a ser soberano na eleição. No começo do segundo turno, os programas sociais do governo federal brecaram a queda de Dilma e impediram que o tucano empatasse.
Mas foi no eleitorado não-bolsista que ela cresceu nas últimas duas semanas. Ele tem sido o responsável por aumentar sua diferença sobre Serra. Hoje, segundo o ibope, 2 em cada 3 eleitores da petista não participam de nenhum programa federal.
E por que esse eleitor declara voto nela? Muito provavelmente pelo bom momento da economia, que expande o emprego, a renda e, principalmente, o crédito para o consumo. Um indicador indireto disso é a avaliação do governo Lula.
Entre o terço de eleitores que dá nota 10 à atual gestão, Dilma tem 78% do total de votos. Entre os 15% que dão nota 9, ela tem 2 em cada 3 votos. O divisor de águas é a nota 8, que compreende 23% do eleitorado.
Nela, Serra chegou a empatar com Dilma no começo do segundo turno: 47% a 47%. Agora, a petista voltou a abrir uma pequena diferença, e lidera por 48% a 43%. De 7 para baixo, o tucano vence por larga margem, mas esses eleitores são apenas um quarto do eleitorado.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
PARA PT, APREENSÃO DE PANFLETOS ANTI-DILMA MOSTRA "SUBMUNDO" DA CAMPANHA
Encomenda de panfletos contra candidata petista era de 20 milhões. PT pede apuração de campanha de telemarketing, DVDs e impressões difamatórios
Por: Suzana Vier e Virgínia Toledo, Rede Brasil Atual
São Paulo - Os panfletos com conteúdo difamatório à candidata do PT, Dilma Rousseff, apreendidos em São Paulo, no sábado (16), confirmam, na visão de José Eduardo Cardozo, secretário-geral da legenda, que uma central de boatos operaria no submundo da campanha eleitoral. A avaliação do deputado federal foi apresentada a jornalistas em uma entrevista coletiva concedida nesta segunda-feira (18). O PT afirma que, embora 1 milhão de folhetos tenham sido apreendidos, a encomenda original era de 20 milhões de exemplares, mas a quantidade não poderia ser produzida pela empresa.
No domingo, (17), a Polícia Federal apreendeu, a pedido do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), exemplares de um panfleto com título "Apelo a todos os brasileiros e brasileiras", assinado pela Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A gráfica Pana, localizada no bairro do Cambuci, em São Paulo, foi a contratada para rodar o material. A CNBB negou, nesta segunda-feira à Agência Estado, que tivesse demandado uma reimpressão.
Leia também:
Serra nega que haja irregularidade em panfletos apreendidos pela PF
Gráfica que imprimiu folhetos falsos contra Dilma pertence a militante do PSDB
Após flagrante, PT quer saber autoria de panfletos anti-Dilma
CNBB retira do ar artigo com pedido de voto anti-Dilma
Bispo de Guarulhos pede voto contra Dilma
Leonardo Boff e Frei Betto defendem voto em Dilma
Em nota, CNBB reitera que não recomenda voto
Dilma encontra-se com lideranças religiosas para barrar boatos
Para Cardozo, que também coordena a campanha da presidenciável, a apreensão de um milhão de panfletos na capital paulista, assinados por bispos da Regional Sul 1 da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), são propaganda ilícita. O material apreendido na gráfica Pana incita o voto contra Dilma e contra o PT entre a comunidade católica.
O petista vê "indícios veementes" de que teriam sido foram produzidos pela campanha adversária de Dilma no segundo turno. "Há indiscutivelmente uma relação próxima da dona da gráfica com o candidato José Serra (PSDB)", afirmou Cardozo. Por isso, o PT protocolou no TSE material que comprova, na visão da legenda, a ligação do PSDB com a empresa. Os documentos somam-se ao pedido de abertura de inquérito entregue no fim de semana à Justiça.
Segundo informações de Cardozo, Arlety Satiko Kobayashi, uma das sócias da gráfica no bairro do Cambuci, é filiada ao PSDB e irmã de Sérgio Kobayashi, coordenador de infraestrutura da campanha de Serra. Arlete seria ainda funcionária da Assembleia Legislativa de São Paulo. Cardozo considerou no mínimo estranha a proximidade entre a atuação de Kobayashi na campanha de Serra e o tipo de trabalho realizado pela irmã na gráfica.
Na metade da entrevista, o deputado estadual reeleito, Antonio Mentor, líder do PT na Assembleia Legislativa paulista, juntou-se ao grupo e acrescentou que novas informações indicam que outro sócio da empresa, Alexandre Ogawa, é filho de um funcionário do Ministério da Saúde, nomeado pelo candidato José Serra, então chefe da pasta.
Ao lado do deputado estadual eleito, Edinho Silva, presidente do PT-SP, Cardozo repetiu diversas vezes que a campanha eleitoral atingiu o extremo da falta de ética, em que ações são realizadas no submundo e às escuras. "Eleição é aguerrida, mas há regras. Críticas e acusações devem ser feitas à luz do dia, com a ética necessária", defendeu Cardozo.
O dirigente petista elencou outras ações difamatórias contra a candidata governista. "Estão distribuindo CDs e DVDs na porta de igrejas (contra Dilma), além de panfletos e e-mails", indignou-se Cardozo.
Silva suscitou que é preciso montar uma grande infraestrutura para distribuir cerca de 20 milhões de folhetos, como informou o pai do dono da gráfica onde os panfletos foram apreendidos. "Amadores ou fiéis não têm estrutura para distribuir milhões de panfletos. Queremos chegar aos mentores", denunciou o dirigente do PT paulista.
O PT pediu abertura de inquérito para investigar os autores do panfleto e esta semana também pede apuração de ações de telemarketing, divulgadas pelos jornais Correio Braziliense e Jornal de Minas, que instigam o voto anti-Dilma.
CNBB
Silva afirmou que no próprio sábado, entrou em contato com D. Pedro Luiz Stringuini, da dioscese de Franca, que negou qualquer relação da CNBB com os panfletos. O bispo teria sugerido inclusive que o PT chamasse a polícia para dar conta do caso. O PSDB também já respondeu que não tem relação com os panfletos, lembrou Silva.
Por: Suzana Vier e Virgínia Toledo, Rede Brasil Atual
São Paulo - Os panfletos com conteúdo difamatório à candidata do PT, Dilma Rousseff, apreendidos em São Paulo, no sábado (16), confirmam, na visão de José Eduardo Cardozo, secretário-geral da legenda, que uma central de boatos operaria no submundo da campanha eleitoral. A avaliação do deputado federal foi apresentada a jornalistas em uma entrevista coletiva concedida nesta segunda-feira (18). O PT afirma que, embora 1 milhão de folhetos tenham sido apreendidos, a encomenda original era de 20 milhões de exemplares, mas a quantidade não poderia ser produzida pela empresa.
No domingo, (17), a Polícia Federal apreendeu, a pedido do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), exemplares de um panfleto com título "Apelo a todos os brasileiros e brasileiras", assinado pela Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A gráfica Pana, localizada no bairro do Cambuci, em São Paulo, foi a contratada para rodar o material. A CNBB negou, nesta segunda-feira à Agência Estado, que tivesse demandado uma reimpressão.
Leia também:
Serra nega que haja irregularidade em panfletos apreendidos pela PF
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Dilma encontra-se com lideranças religiosas para barrar boatos
Para Cardozo, que também coordena a campanha da presidenciável, a apreensão de um milhão de panfletos na capital paulista, assinados por bispos da Regional Sul 1 da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), são propaganda ilícita. O material apreendido na gráfica Pana incita o voto contra Dilma e contra o PT entre a comunidade católica.
O petista vê "indícios veementes" de que teriam sido foram produzidos pela campanha adversária de Dilma no segundo turno. "Há indiscutivelmente uma relação próxima da dona da gráfica com o candidato José Serra (PSDB)", afirmou Cardozo. Por isso, o PT protocolou no TSE material que comprova, na visão da legenda, a ligação do PSDB com a empresa. Os documentos somam-se ao pedido de abertura de inquérito entregue no fim de semana à Justiça.
Segundo informações de Cardozo, Arlety Satiko Kobayashi, uma das sócias da gráfica no bairro do Cambuci, é filiada ao PSDB e irmã de Sérgio Kobayashi, coordenador de infraestrutura da campanha de Serra. Arlete seria ainda funcionária da Assembleia Legislativa de São Paulo. Cardozo considerou no mínimo estranha a proximidade entre a atuação de Kobayashi na campanha de Serra e o tipo de trabalho realizado pela irmã na gráfica.
Na metade da entrevista, o deputado estadual reeleito, Antonio Mentor, líder do PT na Assembleia Legislativa paulista, juntou-se ao grupo e acrescentou que novas informações indicam que outro sócio da empresa, Alexandre Ogawa, é filho de um funcionário do Ministério da Saúde, nomeado pelo candidato José Serra, então chefe da pasta.
Ao lado do deputado estadual eleito, Edinho Silva, presidente do PT-SP, Cardozo repetiu diversas vezes que a campanha eleitoral atingiu o extremo da falta de ética, em que ações são realizadas no submundo e às escuras. "Eleição é aguerrida, mas há regras. Críticas e acusações devem ser feitas à luz do dia, com a ética necessária", defendeu Cardozo.
O dirigente petista elencou outras ações difamatórias contra a candidata governista. "Estão distribuindo CDs e DVDs na porta de igrejas (contra Dilma), além de panfletos e e-mails", indignou-se Cardozo.
Silva suscitou que é preciso montar uma grande infraestrutura para distribuir cerca de 20 milhões de folhetos, como informou o pai do dono da gráfica onde os panfletos foram apreendidos. "Amadores ou fiéis não têm estrutura para distribuir milhões de panfletos. Queremos chegar aos mentores", denunciou o dirigente do PT paulista.
O PT pediu abertura de inquérito para investigar os autores do panfleto e esta semana também pede apuração de ações de telemarketing, divulgadas pelos jornais Correio Braziliense e Jornal de Minas, que instigam o voto anti-Dilma.
CNBB
Silva afirmou que no próprio sábado, entrou em contato com D. Pedro Luiz Stringuini, da dioscese de Franca, que negou qualquer relação da CNBB com os panfletos. O bispo teria sugerido inclusive que o PT chamasse a polícia para dar conta do caso. O PSDB também já respondeu que não tem relação com os panfletos, lembrou Silva.
GRÁFICA DE TUCANA FEZ PANFLETOS ANTI-PT

Reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo desta segunda-feira(18) diz que uma gráfica ligada à uma filiada do PSDB estava produzindo material sem autorização da CNBB e com o objetivo de atacar a candidata do PT.
PF apreendeu 1 milhão de folhetos em empresa que pertence à irmã de um coordenador de campanha de Serra
Apreensão foi decidida pelo TSE após pedido do PT; assessor de Serra e a campanha do tucano negam ligação com caso
BRENO COSTA
DE SÃO PAULO
A Polícia Federal apreendeu ontem, por determinação da Justiça Eleitoral, cerca de 1 milhão de panfletos que pregam voto contra o PT devido à posição favorável à descriminalização do aborto.
A gráfica que imprimia os jornais pertence à irmã do coordenador de infraestrutura da campanha de José Serra (PSDB), Sérgio Kobayashi.
Arlety Satiko Kobayashi é dona de 50% da Editora Gráfica Pana Ltda, localizada no Cambuci, na capital paulista.
A empresária é filiada ao PSDB desde março de 1991, segundo registro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
O ministro do TSE Henrique Neves concedeu liminar para a apreensão dos panfletos atendendo a representação do PT para apuração de crime de difamação. O partido também pede investigação sobre quem pagou a impressão do material.
Sérgio Kobayashi atribuiu ontem a uma coincidência o fato de a gráfica Pana ter sua irmã como sócia. A assessoria da campanha de Serra negou qualquer relação entre o candidato e a produção dos panfletos, nem por meio de encomenda, financiamento ou indicação de gráfica.
"A campanha de José Serra não aceita a insinuação de conluio de qualquer tipo entre a atividade eleitoral e a Igreja Católica. É um desrespeito à Diocese de Guarulhos e à própria Igreja imaginar que possam ser correia de transmissão de qualquer candidatura. A Igreja Católica não é a CUT", diz a nota.
Responsável pelo contato com a gráfica, Kelmon Luís de Souza afirmou que encomendou 20 milhões de panfletos em nome da diocese e que o dinheiro para a impressão veio de "doações pesadas de quatro ou cinco fiéis".
NOTA DA CNBB
Bispos do braço paulista da CNBB divulgaram nota ontem na qual dizem que "não patrocinam a impressão e a difusão de folhetos". Contudo, o bispo que assina a nota de ontem, dom Nelson Westrupp (de Santo André), presidente a Regional Sul 1 da CNBB, é um dos que assina o texto reproduzido nos panfletos apreendidos.
"O Regional Sul 1 da CNBB desaprova a instrumentalização de suas declarações e notas e enfatiza que não patrocina a impressão e a difusão de folhetos a favor ou contra candidatos", diz a nota divulgada ontem em Indaiatuba (SP). Os bispos que comandam a regional não quiseram falar após a apreensão dos panfletos.
Cerca de 50 bispos paulistas se reuniram durante duas horas anteontem para redigir a nota que demonstra o recuo da regional. Eles avaliaram que o erro do texto de agosto, já retirado do site da regional, foi ter citado o PT e ter feito referência a Dilma.
"O erro que foi a apresentação de siglas partidárias. Isso não poderia ter acontecido", disse o bispo de Limeira, d. Vilson Dias de Oliveira.
domingo, 17 de outubro de 2010
ANÁLISE - DILMA É GARANTIA DO PROCESSO DEMOCRÁTICO

O Cientista Político Giuseppe Cocco em artigo publicado no caderno "Tendências & Debates" do jornal Folha de São Paulo deste domingo (17)faz uma série de argumentações para que a onda verde se junte a onda vermelha e garanta assim as transformações sociais e políticas com sustentabilidade.Leia abaixo a íntegra reprodruzida pelo blog do PTFÓBRASILANDIA:GIUSEPPE COCCO
O medíocre desempenho eleitoral de José Serra nesse primeiro turno é consequência do esgotamento do discurso tecnocrático que, durante a breve hegemonia da macroeconomia neoliberal, tinha funestamente reanimado os mornos interesses das elites brasileiras.
Por trás da hipocrisia deslavada (até com a demonização dos direitos das mulheres), só resta a linguagem insensata do fundamentalismo economicista: o Brasil é um "custo" a ser "cortado". É a apologia dos meios (cortes dos custos) contra os fins (todos os brasileiros).
A vitória parcial, mas expressiva, de Dilma Rousseff contém muitos dos elementos inovadores desses oito anos de governo Lula: distribuição de renda, políticas culturais, democratização do ensino superior, formidável criação de empregos formais, demarcação das reservas indígenas e, enfim, uma política externa autônoma.
Contudo, na campanha do PT há também acentos do velho adágio: os fins justificam os meios. O crescimento (os meios) não precisa ser pensado, pois é justificado pelo fim (o desenvolvimento): uma siderúrgica se justifica por si.
A candidatura de Marina Silva foi o fato novo quando ela teve a coragem de dizer que os fins e os meios devem estar juntos. Cultura (desenvolvimento) e natureza não devem se opor, mas qualificar-se reciprocamente, na hibridização que eles são: natureza artificial e artifício natural!
Mas o modo como a "onda verde" juntou os jovens urbanos libertários aos piores fundamentalismos foi dramaticamente paradoxal: os meios e os fins acabaram se opondo entre si, de maneira insustentável.
O segundo turno desenha uma nítida alternativa. Por um lado, uma "coalizão dos meios" se apresenta como novo fundamentalismo abertamente reacionário. Seu regime discursivo é aquele do medo.
Não se sabe o preço social que todos pagaremos pelo leilão de paixões tristes (machismo, sexismo, racismo) atiçado pelos que nada têm a propor, a não ser uma virada protofascista.
Pelo outro lado, a "coalizão dos fins" pode se juntar aos meios e tornar-se sustentável diante dos novos desafios.
Se o capitalismo global inclui (explora) os pobres enquanto pobres fragmentos heterogêneos em competição no mercado, os pobres se organizam cada vez mais enquanto diferenças: favelados, negros, mestiços, mulheres, indígenas, quilombolas, gays, lésbicas, sem terra.
É aqui, nos pobres, que desenvolvimento e natureza estão juntos e o voto ecologista mantém sua potência. Para não ser capturada, a novidade da candidatura Marina deve apostar na democrática hibridização do social ("cultura") e da natureza (meio ambiente), ou seja, na junção da resistência contra a volta da "peste neoliberal" com as políticas dos pobres.
É só no governo de Dilma que poderemos continuar lutando para transformar a quantidade (o crescimento) em qualidade (um outro tipo de desenvolvimento). A sustentabilidade é aquela da mestiçagem das ondas vermelha e verde, para além de e contra os fundamentalismos.
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GIUSEPPE COCCO, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor, entre outras obras, de "MundoBraz: O Devir Brasil do Mundo e o Devir Mundo do Brasil".
REVISTA ISTOÉ - O PODEROSO PAULO PRETO PARTE 1

A revisa ISTOÉ desta semana traz uma extensa matéria intitulada “O Poderoso Paulo Preto” que é o homem acusado pelo PSDB de dar sumiço de R$4 milhões da campanha tucana. Segue abaixo a 1º parte da matéria.
O homem acusado pelo PSDB de dar sumiço em R$ 4 milhões da campanha tucana faz ameaças e passa a ser defendido por Serra
Sérgio Pardellas e Claudio Dantas Sequeira
INAUGURAÇÃO DO RODOANEL
Serra aparece em foto de 30 de março de 2010 junto com
Paulo Preto, que meses mais tarde alegou não conhecer
Como candidato à Presidência da República, José Serra deve explicações mais detalhadas à sociedade brasileira. Elas se referem a um nome umbilicalmente ligado à cúpula do PSDB, mas de pouca exposição pública até dois meses atrás: Paulo Vieira de Souza, conhecido dentro das hostes tucanas como Paulo Preto. Desde que a candidata do PT, Dilma Rousseff, pronunciou o nome de Paulo Preto no debate realizado pela Rede Bandeirantes no domingo 10, Serra se viu envolvido em um enredo de contradições e mistério do qual vinha se esquivando desde agosto passado, quando ISTOÉ publicou denúncia segundo a qual o engenheiro Paulo Souza, ex-diretor da estatal Dersa na gestão tucana em São Paulo, era acusado por líderes do seu próprio partido de desaparecer com pelo menos R$ 4 milhões arrecadados de forma ilegal para a campanha eleitoral do PSDB. Na época, a reportagem baseou-se em entrevistas, várias delas gravadas, com 13 dos principais dirigentes tucanos, que apontavam o dedo na direção de Souza para explicar a minguada arrecadação que a candidatura de Serra obtivera até então. Depois de publicada a denúncia, o engenheiro disparou telefonemas para vários líderes, dois deles com cargos no comando da campanha presidencial, e, apesar da gravidade das acusações, os tucanos não se manifestaram, numa clara opção por abafar o assunto. O próprio presidenciável Serra optou pelo silêncio. Então, mesmo com problemas de caixa e reclamações de falta de recursos se espalhando pelos diretórios regionais, o PSDB preferiu jogar o assunto para debaixo do tapete.
No debate da Rede Bandeirantes, Serra mais uma vez silenciou. Instado por Dilma a falar sobre o envolvimento de Paulo Preto no escândalo do sumiço da dinheirama, não respondeu. Mas o pavio de um tema explosivo estava aceso e Serra passou a ser questionado pela imprensa em cada evento que participou. E, quando ele falou, se contradisse, apresentando versões diametralmente diferentes em um período de 24 horas. Na segunda-feira 11, em Goiânia (GO), em sua primeira manifestação sobre o caso, o candidato do PSDB negou conhecer o engenheiro. “Não sei quem é o Paulo Preto. Nunca ouvi falar. Ele foi um factoide criado para que vocês (jornalistas) fiquem perguntando.” A declaração provocou uma reação imediata. Na terça-feira 12, a “Folha de S.Paulo” publicou uma entrevista em que o engenheiro, oficialmente um desconhecido para Serra, fazia ameaças ao candidato tucano. “Ele (Serra) me conhece muito bem. Até por uma questão de satisfação ao País, ele tem que responder. Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada. Não cometam este erro”, disparou Paulo Preto. Serra demonstrou ter acusado o golpe. Horas depois da publicação da entrevista, em evento em Aparecida (SP), o candidato recuou. Com memória renovada, saiu em defesa do ex-diretor do Dersa. Como se jamais tivesse tratado deste assunto antes, Serra afirmou: “Evidente que eu sabia do trabalho do Paulo Souza, que é considerado uma pessoa muito competente e ganhou até o prêmio de engenheiro do ano. A acusação contra ele é injusta. Ele é totalmente inocente. Nunca recebi nenhuma acusação a respeito dele durante sua atuação no governo”. Aos eleitores, restou uma dúvida: em qual Serra o eleitor deve acreditar? Naquele que diz não conhecer o engenheiro ou naquele que elogia o profissional acusado pelo próprio PSDB de desviar R$ 4 mihões da campanha? As idas e vindas de Serra suscitam outras questões relevantes às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais: por que o tema lhe causou tanto constrangimento? O que Serra teria a temer para, em menos de 24 horas, se expor publicamente emitindo opiniões tão distintas sobre o mesmo tema?
Ainda está envolto em mistério o que Paulo Preto teria na manga para emparedar Serra. A movimentação do engenheiro nas horas que sucederam o debate da Rede Bandeirantes mostra claramente como ele é influente, poderoso e temido nas hostes tucanas. Conforme apurou ISTOÉ, logo depois do programa, Paulo Preto, bastante irritado por não ter sido defendido pelo candidato do PSDB, começou a telefonar para integrantes do partido. Um deles, seu padrinho político, o ex-chefe da Casa Civil de São Paulo, senador eleito Aloysio Nunes Ferreira, que deixou o debate logo que o nome do engenheiro foi mencionado. Outras duas chamadas, ainda de madrugada, foram para as residências de um secretário do governo paulista e de um dos coordenadores da campanha de Serra em São Paulo. Nas conversas, Paulo Preto disse que não ia admitir ser abandonado pelo partido. E que iria “abrir o verbo”, caso continuasse apanhando sozinho. Com a defesa de Serra, alcançou o que queria. Para os dirigentes do partido restou o enorme desconforto de passarem o resto da semana promovendo contorcionismos verbais para defender as ações de um personagem que acusavam dois meses antes. Em agosto, o PSDB vivia outro momento político, vários líderes tucanos reclamavam do estilo “centralizador e arrogante” de Serra, tinham dificuldades para arrecadar recursos e vislumbravam uma iminente derrota nas urnas. Agora, disputando o segundo turno e sob a ameaça de Paulo Preto, promovem uma ação orquestrada para procurar desqualificar as denúncias que eles próprios fizeram. “Às vésperas da eleição podemos ganhar o jogo. Portanto, não vou dizer nada a respeito do Paulo Preto”, disse uma das principais lideranças do partido na noite da quarta-feira 13. Esse mesmo tucano, em agosto, revelara detalhes sobre a atuação do engenheiro na obra do trecho sul do rodoanel. “Não é hora de remexer com o Paulo Preto. Isso poderá colocar em risco nossa vitória”, afirmou na manhã da quinta-feira 14 um membro da Executiva Nacional do partido, que em agosto acusara o engenheiro de desviar R$ 4 milhões da campanha. “Em agosto, depois da reportagem de ISTOÉ, procuramos empresários e eles negaram que Paulo Preto tenha pedido contribuições”, disse o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE). Se fez de fato esse movimento, Guerra não teve pressa em revelá-lo. Só foi fazê-lo agora, pressionado pelas declarações do engenheiro.
sábado, 16 de outubro de 2010
PRIVATIZAÇÕES E O INTERESSE NACIONAL
Em artigo publicado no caderno Tendências e Debates da Folha de São Paulo deste sábado (15) o assessor especial Marco Aurélio Garcia faz uma análise sobre a importância das estatais do setor elétrico, dos bancos públicos e da Petrobrás na contenção da última grande crise econômica mundial. (LB)
MARCO AURÉLIO GARCIA
No primeiro debate televisivo do segundo turno desta campanha eleitoral, José Serra mostrou-se incomodado quando o tema das privatizações foi colocado por Dilma Rousseff. Serra quis dar ao debate da questão um significado eleitoreiro, talvez pensando que seja mais um "trololó" da esquerda, como gosta tanto de dizer.
Não é assim. Quando a sociedade brasileira é convocada para decidir os destinos do país nos próximos anos, nada mais natural que o papel do Estado em nosso projeto nacional de desenvolvimento seja devidamente debatido.
A questão das privatizações emergiu no governo Collor de Mello, dormitou no interregno Itamar Franco e ganhou força durante o período FHC.
Correspondeu a período marcado não só pela "débâcle" dos regimes comunistas europeus e pela deriva social-democrata como pelo aparente êxito da proposta neoliberal que vicejava na Inglaterra de Thatcher e no Chile de Pinochet.
As teses sobre a diminuição do papel do Estado -quando não da necessidade do Estado mínimo- que acabaram por bater, ainda que tardiamente, nas costas brasileiras refletiam um otimismo desenfreado sobre o papel dos mercados na regulação econômica e financeira. Elas espelhavam também o grande fascínio exercido pela "globalização" produtiva, mas sobretudo financeira, em curso.
Ao considerar, de certa forma, irrelevantes a produção e os mercados nacionais, elas acabavam por minimizar o papel desempenhado pelos Estados nacionais.
Os governantes teriam de ser apenas gerentes de políticas mundialmente acordadas pelos grandes centros econômicos. Ficariam relegados a replicar orientações macroeconômicas de fora, que viabilizassem novo desenho geoeconômico e, evidentemente, geopolítico.
FHC não hesitou em proclamar o advento de um "novo Renascimento" mundial, ainda que fosse obrigado a reconhecer que alguns milhões de brasileiros iriam ficar obrigatoriamente fora deste suposto ciclo de prosperidade.
Complementando o ajuste que aqui e lá fora foi praticado, trataram de liberar o Estado de pesados fardos -as estatais-, que supostamente o impediam de cumprir suas funções. Ficava a dúvida sobre quais seriam essas "funções".
Não por acaso usou-se na propaganda a favor das privatizações a imagem de um elefante em um local fechado. As estatais não passavam de um trambolho que impedia o desenvolvimento do país.
No altar dessas crenças foram sacrificadas importantes empresas nacionais. Os cerca de US$ 100 bilhões conseguidos no processo de privatização comandado pelo ministro José Serra se esfumaram.
O país aumentou consideravelmente sua dívida interna e se tornou muito mais vulnerável internacionalmente, como ficou claro quando as crises mexicana, asiática e russa levaram o Brasil sucessivamente à beira do abismo.
Perversidade maior desse processo foi o uso de vultuosos recursos do BNDES para financiar as empresas estrangeiras que entraram nas privatizações. Resumindo a originalidade brasileira: privatizou-se com dinheiro do Estado brasileiro.
Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em 2008, no início da grande crise econômica mundial, o presidente Lula afirmou ter chegado a "hora da política", a hora do Estado. Os meses que se seguiram deram a essa fala toda a sua significação.
Por ter barrado as privatizações, fortalecido as estatais e dado a elas um papel estratégico no desenvolvimento nacional, o Brasil pôde enfrentar, como poucos países, a tempestade financeira que se abateu sobre o mundo.
Os bancos públicos, a Petrobras e as estatais do setor elétrico foram fundamentais nesse processo.
Portanto, não estamos diante de um debate que opõe dinossauros a modernos. O que está em jogo é o interesse nacional.
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MARCO AURÉLIO GARCIA é assessor especial de política externa da Presidência da República e coordenador do programa de governo de Dilma Rousseff (PT). Foi secretário de Cultura do município de São Paulo (gestão Marta Suplicy).
MARCO AURÉLIO GARCIA
No primeiro debate televisivo do segundo turno desta campanha eleitoral, José Serra mostrou-se incomodado quando o tema das privatizações foi colocado por Dilma Rousseff. Serra quis dar ao debate da questão um significado eleitoreiro, talvez pensando que seja mais um "trololó" da esquerda, como gosta tanto de dizer.
Não é assim. Quando a sociedade brasileira é convocada para decidir os destinos do país nos próximos anos, nada mais natural que o papel do Estado em nosso projeto nacional de desenvolvimento seja devidamente debatido.
A questão das privatizações emergiu no governo Collor de Mello, dormitou no interregno Itamar Franco e ganhou força durante o período FHC.
Correspondeu a período marcado não só pela "débâcle" dos regimes comunistas europeus e pela deriva social-democrata como pelo aparente êxito da proposta neoliberal que vicejava na Inglaterra de Thatcher e no Chile de Pinochet.
As teses sobre a diminuição do papel do Estado -quando não da necessidade do Estado mínimo- que acabaram por bater, ainda que tardiamente, nas costas brasileiras refletiam um otimismo desenfreado sobre o papel dos mercados na regulação econômica e financeira. Elas espelhavam também o grande fascínio exercido pela "globalização" produtiva, mas sobretudo financeira, em curso.
Ao considerar, de certa forma, irrelevantes a produção e os mercados nacionais, elas acabavam por minimizar o papel desempenhado pelos Estados nacionais.
Os governantes teriam de ser apenas gerentes de políticas mundialmente acordadas pelos grandes centros econômicos. Ficariam relegados a replicar orientações macroeconômicas de fora, que viabilizassem novo desenho geoeconômico e, evidentemente, geopolítico.
FHC não hesitou em proclamar o advento de um "novo Renascimento" mundial, ainda que fosse obrigado a reconhecer que alguns milhões de brasileiros iriam ficar obrigatoriamente fora deste suposto ciclo de prosperidade.
Complementando o ajuste que aqui e lá fora foi praticado, trataram de liberar o Estado de pesados fardos -as estatais-, que supostamente o impediam de cumprir suas funções. Ficava a dúvida sobre quais seriam essas "funções".
Não por acaso usou-se na propaganda a favor das privatizações a imagem de um elefante em um local fechado. As estatais não passavam de um trambolho que impedia o desenvolvimento do país.
No altar dessas crenças foram sacrificadas importantes empresas nacionais. Os cerca de US$ 100 bilhões conseguidos no processo de privatização comandado pelo ministro José Serra se esfumaram.
O país aumentou consideravelmente sua dívida interna e se tornou muito mais vulnerável internacionalmente, como ficou claro quando as crises mexicana, asiática e russa levaram o Brasil sucessivamente à beira do abismo.
Perversidade maior desse processo foi o uso de vultuosos recursos do BNDES para financiar as empresas estrangeiras que entraram nas privatizações. Resumindo a originalidade brasileira: privatizou-se com dinheiro do Estado brasileiro.
Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em 2008, no início da grande crise econômica mundial, o presidente Lula afirmou ter chegado a "hora da política", a hora do Estado. Os meses que se seguiram deram a essa fala toda a sua significação.
Por ter barrado as privatizações, fortalecido as estatais e dado a elas um papel estratégico no desenvolvimento nacional, o Brasil pôde enfrentar, como poucos países, a tempestade financeira que se abateu sobre o mundo.
Os bancos públicos, a Petrobras e as estatais do setor elétrico foram fundamentais nesse processo.
Portanto, não estamos diante de um debate que opõe dinossauros a modernos. O que está em jogo é o interesse nacional.
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MARCO AURÉLIO GARCIA é assessor especial de política externa da Presidência da República e coordenador do programa de governo de Dilma Rousseff (PT). Foi secretário de Cultura do município de São Paulo (gestão Marta Suplicy).
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